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  • Foto do escritorRami

O polêmico uso da maconha na Coreia do Sul



O K-Pop sempre foi uma rede recheada de polêmicas e quando ouvimos assuntos como o uso de drogas na indústria, alguns grupos com membros expulsos por esse motivo vem a mente. A verdade é que a Coreia do Sul é bem estrita quanto à esse tópico, principalmente quando é relacionado com pessoas que pertencem a mídia sul coreana, seja sendo o uso de maconha que é legalizada em alguns países até a metanfetamina que é considerada uma droga mais pesada, seus usuários são julgados e classificados em um mesmo grupo social. A abordagem estrita da Coreia às drogas pode ser surpreendente para nós ocidentais, mas o que é ainda mais severo do que as consequências é a reação geral do público aos delitos de drogas. Os usuários de drogas são condenados como "yakjaengi", que significa “drogas”, e enfrentam um estigma duradouro.


O uso de drogas na Coreia do Sul continua sendo um grande tabu e pode causar um duro golpe nas carreiras das celebridades. Shin Jung-hyeon, um grande astro do rock coreano, na década de 1970 foi preso pelo uso de maconha. Pouco tempo depois, a lenda da música Cho Yong-pil também foi multada por fumar maconha. Bombardeado com críticas, o cantor anunciou sua aposentadoria, embora tenha retornado menos de um ano depois, porém, sem sucesso. Acontece que, na década de 1970, fumar maconha era uma cultura entre músicos e intelectuais que se manifestavam contra o regime político da época. O uso de drogas também era característico dos movimentos de contracultura no Ocidente nessa época.


Shin Jung Hyeon e Cho Yong Pil

Retratar a maconha como uma substância perigosa e punir os usuários como infratores das drogas era uma desculpa conveniente para reprimir os dissidentes do regime. Essa repressão deixou uma impressão no ideal da população coreana, de que a maconha é uma substância nociva, por isso permaneceu tão tabu quanto as drogas pesadas desde então. Devido a essas percepções negativas, o movimento para legalizar ou descriminalizar a maconha, que tem sido comum e muitas vezes bem-sucedido nos países ocidentais, fracassou na Coreia.


A maconha é vista da mesma forma que as drogas pesadas pelos os coreanos, que acabam também deixando pra trás suas qualidades medicinais. A pesquisa científica provou que o canabidiol (CBD), um componente químico da maconha, é eficaz em pacientes que sofrem de câncer em estágio avançado, esclerose múltipla, epilepsia ou convulsões. Em 2018, o governo coreano começou a permitir alguns produtos farmacêuticos contendo componentes benéficos da maconha, mas como a maconha ainda é considerada "perigosa", os produtos exigem receita médica e muito poucos pacientes podem usá-los, isso não é de se estranhar já que muitos países (inclusive o nosso) ainda estigmatizam qualquer benefício que venha da maconha.



Mesmo com a percepção do uso da maconha sendo tão negativo, ironicamente o uso da droga esteve aumentando ultimamente. Em 2020, a polícia coreana confiscou 49,9 kg (110 libras) de maconha, um aumento de 130% em relação aos 21,7 quilos em 2019. Os infratores da legislação antidrogas com menos de 19 anos também estão aumentando. A maioria das drogas é contrabandeada do exterior, mas hoje em dia alguns coreanos estão cultivando sua própria cannabis e cogumelos psicodélicos em casa e depois os vendem na dark web.


Outro motivo para o uso da maconha ser criminalizado é o uso da droga ser considerado como uma "porta de entrada" para drogas mais pesadas. Além dos fins medicinais, grande parte dos coreanos são totalmente contra a legalização ou descriminalização da maconha por achar arriscado, já que é disseminado que seu uso reduz o autocontrole e a barreira psicológica das drogas mais pesadas.


A Coalizão Nacional para a Legalização da Cannabis e o advogado Park Jin-sil, um advogado especializado em casos de drogas na Coreia do Sul, argumentam que a teoria da droga de entrada é uma hipótese descartada.

O verdadeiro problema de drogas na Coreia é que as pessoas não podem acessar a droga de entrada, então vão direto para a metanfetamina, estatisticamente, a metanfetamina é a droga número 1 preferida na Coreia, usada muito mais do que a maconha. Isso é anormal. À medida que as drogas leves permanecem clandestinas, as pessoas vão para o mercado negro, onde são expostas a drogas ainda mais pesadas. Se a maconha recreativa for legalmente acessível, as pessoas não precisam ser expostas à metanfetamina por traficantes obscuros.

Park Jin-Sil, advogado especializado em casos de drogas.


O sistema de justiça coreano só recentemente aceitou a ideia de que a reabilitação, não a punição, deve ser o foco ao lidar com o vício em drogas. Atualmente, o sistema de justiça da Coreia oferece oportunidades de reabilitação, como um centro do Ministério de Segurança Alimentar e Medicamentoso onde são oferecidas sessões de terapia gratuitas. As acusações ou sentenças de prisão de muitos infratores da legislação antidrogas são suspensas se eles concordarem em se submeter à reabilitação. Ainda assim, aos olhos da lei e das autoridades investigativas, os viciados não são mais do que criminosos que devem ser punidos.


A criminalização do uso da maconha na Coreia parece muito mais um preconceito do que algo com embasamento científico e social. Deve ser lembrado que o álcool e o cigarro, legalizados por todo o mundo, também são drogas, então assim podemos considera-las as primeiras drogas de entrada? A sociedade coreana é tão tolerante com o álcool, embora ele possa levar cidadãos a crimes violentos o tempo todo, mas até mesmo discutir a maconha é um tabu, o caminho racional a seguir é o governo pelo menos tornar a maconha medicinal mais acessível já que muitos enfermos sofrem sem seus benefícios.


Fontes: 1| 2

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